quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009

acaba exactamente como começou, contigo. um ano em que aprendi o que é crescer, o que é saber suportar as dores que o crescimento causa (antes, não sabia tão bem crescer ou aguentar). um ano em que tive a certeza que todas aquelas coisas que queremos muito, merecem a nossa dedicação e insistência. merecem, sobretudo, a nossa constante atenção, algo que surge natural, como se passasse a fazer parte da nossa vida. sem diferenças. acaba exactamente como começou e como eu quero que comecem e acabem todos os anos que se seguirem. vou tomá-lo como exemplo. 2009. pode vir o que se segue.

esperar

quase sempre os meus livros do ano são de outro ano qualquer. as minhas músicas do ano, menos, mas também. as minhas pessoas do ano raramente apareceram agora, são pessoas de há muitos anos, de há muitas coisas atrás. sinto-me mais dentro de um período (a minha vida) do que repartido em anos. não faço listas, portanto. espero apenas que as coisas boas continuem a aparecer, a acontecer. é só isso que eu espero.

continuar

o vento continua. a chuva continua. tudo continua. um ano é sempre um ano depois do outro. quase sempre igual. um dia a mais. onde as coisas continuam. continuam.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

bala perdida

como preferias morrer, de uma bala perdida ou por seres alvo de um assassino? uma bala perdida pressupõe uma certa inocência. um certo dia, gonçalo p. conduzia o seu carro e parou no sinal vermelho. na esquina da rua passa a correr um ladrão de ourivesarias. tiros. gonçalo p. morreu. inocente. no entanto, gonçalo p. era também ele um ladrão. de automóveis. várias vezes na sua vida conseguira fugir aos tiros de polícias, de vítimas, de gangues rivais. no entanto, gonçalo p. morreu inocente. como preferias morrer, de uma bala perdida ou por seres alvo de um assassino?

miradouro

dos pequenos lugares vê-se o mundo inteiro. vai pedir ao senhor da grande metrópole para desenhar um mapa de um país longínquo. vai perguntar ao vencedor a geografia do vencido. dos pequenos lugares vê-se o mundo inteiro. quem já perdeu sabe como se preparar para ganhar, ao contrário daquele que ganhou sempre. dos pequenos lugares vê-se o mundo inteiro. o que parece uma pequena janela, é, de facto, o meu miradouro universal.

ideia

roubar ideias até poderia ser fácil, não fossem as ideias dos outros serem tantas vezes complicadas e nos obrigassem a pensá-las antes de as usar. melhor seria se uma ideia pudesse ser repetida sem mais, roubavasse a ideia e já estava, sem esforço, sem invenção, e logo os resultados começavam a ser colhidos. mas não. as ideias dos outros são, tantas vezes, muito complicadas, e nós, que as roubamos, damos por nós a pensar nas ideias dos outros, correndo até o risco de vir a ter ideias próprias, uma chatice, já viram onde é que se vai parar só por se tentar roubar uma ideia?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

cheiro

ainda assim, a casa é o reduto. estás fechado, a ver a chuva lá fora, uma ou outra pessoa em passo apressado. uma árvore que abana, a porta do café onde alguém fuma. ainda assim, a casa é o reduto. sabes que queres preservar a tua pele, não a conspurcas com um cheiro que não é teu. ao fim do dia é essa a tua conquista. o teu cheiro. o teu cheiro. só teu.

fingir

usas de tudo para fingires-te vivo. e, no entanto, a tua única vida é abrir um livro e deitares-te no sofá. é aí que cresces e te inventas, com liberdade, originalidade, certeza. abrir um livro é a tua segurança, apenas igualável num abraço quente de uma noite. usas de tudo para fingires-te vivo. e, quantas vezes, só tu não o vês.

palavras

vives nas palavras até ao dia em que percebes que as palavras são apenas isso: coisas que se colam nas ideias. chegando a noite, tens frio. podes fingir que aguentas, mas não aguentas. vives nas palavras. até ao dia.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

lugar


se os meus olhos te oferecessem a paisagem da minha infância, não irias reconhecer o terreno baldio, as longas vinhas cheias de uva. irias antes tentar compreender como o vazio se preenche, não de memória, mas de tijolo. se os meus olhos te oferecessem a paisagem da minha infância, o lado de lá do muro, a estrada para o lar onde vivia a avó velhinha, tu ias procurar um homem onde só havia uma criança, ias procurar um qualquer plano municipal onde só havia inocência. se os meus olhos te oferecessem a paisagem da minha infância, tu não irias compreender a cidade, os homens nela, as escavações. porque na ideia ainda tudo está como dantes. e o teu lugar não é o lugar onde os outros vivem; ficou para ser, apenas, o lugar que é teu porque o foi um dia.
fotografia de joão henriques

terra de cesário


o teu segredo é este, se perceberem o teu segredo. para onde quer que te vires, uma árvore, resquício verde da memória, da fortuna. depois, construir. constróis o tempo como te apetece, cheio de incongruências e calamidades. ora uma pequena casa, onde um velho se resguarda da tempestade, ora o enorme edifício, onde a estrada se faz pequena para tanta sede e fome reunidas. o teu segredo é este, se perceberem o teu segredo. uma beleza particular de inesperado.
fotografia de joão henriques

fábrica


não deixes que a tempestade te embacie o olhar: a tua terra continua lá, debaixo de toda a natureza arrancada, debaixo de tudo aquilo que foi excesso e agora é apenas recordação amarga da tempestade. no entanto, a tua terra continua lá. na memória apagada da produção industrial, nos nocturnos adiados do regresso a casa, no homem velho que ainda vem todos os dias da sua aldeia, numa mota famel, até à porta da fábrica, como se nada tivesse acontecido.
fotografia de joão henriques

domingo, 27 de dezembro de 2009

escrever-se

as coisas estão todas cá dentro da cabeça. sinto-as em mutação. dentro da cabeça é onde começam as palavras, as frases, os livros. sinto que se mexem. dentro da cabeça é onde eu estou sem explicação. onde as coisas procuram os seus próprios sentidos. eu fico quieto. apenas sinto. deixo que cada coisa tome o seu lugar, pronta a escrever-se quase sozinha.

amanhecer

amanhece devagar em dezembro, o mar enrola-se no vento e ecoa nos meus ouvidos. alguns passos no corredor dos prédios, um cão que ladra lá fora, um carro que passa. amanhace devagar em dezembro, sobretudo se é domingo, se o café ainda não aquece na cafeteira, se ninguém nos telefona a chamar para o almoço. tento agarrar o telefone e sinto as páginas do livro na mesa de cabeceira. sorrio, só para dentro, de olhos fechados. amanhece devagar, por aqui.

sono

se não souberes que outra coisa lhe chamar, chama-lhe sono. chama-lhe day after. chama-lhr preguiça, cansaço, fim de ano. se não souberes que outra coisa lhe chamar, chama-lhe um nome bonito. um nome que lhe caiba bem. um nome adequado. um nome. um nome qualquer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

aprendizagem

eu agora também sei de que forma é preciso andar três quilómetros para conseguir, finalmente, falar com alguém da família, sei as asneiras que disse quando vi o pinhal dos casalinhos arrancado e espalhado pela estrada, sei a frustração que é sentir que a natureza é mais forte que nós. agora, resta-nos apenas sentir. e nessa confusão de sensações, saber aprender algo para o dia que aí vem.

comunidade

uma comunidade acorda nos momentos de crise. sente-se a dor partilhada por todos aqueles que percorrem as ruas e olham assustados para as coberturas que voaram, os vidros e montras que se partiram, as sinalizações que foram arrancadas ao chão, as árvores que caíram e se espalharam por toda a localidade. uma comunidade acorda nos momentos de crise. porque sentimos, da pior maneira, que sofremos algo juntos, e o que sofremos foi o medo e o susto daquilo nos estar a acontecer precisamente a nós.

saber

eu sei a quem me abracei esta noite, quando o vento parecia querer entrar casa a dentro. sei a quem me abracei, quem me protegeu e eu protegi, quem quis que ficasse mesmo ali ao meu lado, sem sequer se demover um segundo, um milimetro. eu sei.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

reagir

confundes, confundes os nomes, as frases, as frases, confundes, confundes os nomes, a ideia, as ideias, as ideias, os nomes, os nomes, confundes, confundes, reages, reages, confundes, o nome, a ideia, no plural, na cabeça, no plural, na cabeça, //




e depois ainda são capazes de te perguntar porque vives só por dentro, ninguém sabe que te falta o tempo para encarar a porta da rua se tudo o que se passa dentro de ti, aquilo que só tu vês, é já muito, muito mais do que deverias poder aguentar//

confundes, confundes, reages, reages, reages mal.

cabra cega

a cabra cega repetida mil vezes na cabeça, em sonho/em sonhos, mil maneiras de dizer, melhor, mil maneiras de viver o mesmo momento, os putos e as miúdas do recreio, a cabra cega, a cabra cega repetida mil vezes na cabeça, não o podes evitar, não há como o evitar, dezenas de comprimidos na mesa de cabeceira, noites, noites sem dormir, a tua cara em frente ao espelho da casa de banho, a cabra cega repetida mil vezes na cabeça, mil vezes, em sonho/ em sonhos, sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre sempre o mesmo.

agora

agora, deixa cair, deixa cair, a chuva, a chuva, os medos, de nada te serve detê-los, deixa, deixa cair, lá fora, lá fora, a chuva, os gritos, as lágrimas, os medos, agora, agora, de nada, de nada te serve, tu sabes, tu sabes.

física/sexual

ontem, na mesa do restaurante, a ouvir a conversa da mesa ao lado, a voz da professora, "o que tem a aula de educação física a ver com a educação sexual", e a pensar, eu era capaz de ter uma ou duas ideias sobre o assunto, uma ou duas ideias sobre o assunto.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

amanhã

deixar de saber o que é a ânsia da última noite, do último nascer do sol por entre os estores do quarto, é compensando pela permanente ideia de haver mais amanhã.

protecção

encosta-te a mim e respira o calor do corpo, segue o ritmo da batida do coração, deixa-te dormir, estás protegida, estás protegida.

chuva

tantas palavras sobre a cama e nenhuma que te sirva para explicar a força com que a chuva cai lá fora, enquanto tu nem tens sono, nem vontade de te levantar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

adivinha

o terreno cheio de poças de água, o carro a avançar, em qual delas o veículo se irá atolar?

império

e depois dás de caras com qualquer coisa de memorável, qualquer coisa que tu sabes que vai ficar na história. não é preciso mais nada, ouves a música e sabes que ela vai ficar. e então tu estacas e deixas-te absorver pelas palavras, pelo ritmo, pelos sons. não é preciso mais nada para completar o sentido. o sentido é isto.

curta

eu sentado na esquadra da polícia de segurança pública e o quim barreiros pedrado a aparecer na televisão, os polícias a fazerem a árvore de natal e eu sem poder dizer nada, o quim barreiros a aparecer pedrado na televisão e eu sentado na esquadra da polícia de segurança pública, as luzinhas a piscar na árvore de natal, tudo tão bonito, tudo tudo tão bonito.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

recado

como um gato caminhando em teu corpo, descobrindo-te toque a toque, eu adormeço a ouvir a chuva lá fora, o vento no mar, a ecoar, a ecoar. talvez te tenha acordado com o meu lento miar, mas senti que nos teus lábios, ainda iria escorregar.

bossinha

os meus pés são portugal, a minha cabeça brasil, o meu abraço o teu regaço, algum dia a encontrar, era preciso procurar a rima certa da canção. os meus olhos são paris, minha boca é nova iorque, transportando a bandeira de tirandentes no stock, já fui lenda de joelhos, já fui marca de reboque, fui versinho de criança, melhor parceiro desta dança. segue na caixa de ritmos, uma outra aceleração, e a palavra que eu procuro é a que faz o refrão. vi-te hoje ao acordar, eras tudo o que eu esperava, não sei se eu já te disse, eras o que eu procurava.

música

antigamente, abria-se a janela e o cenário era um relvado verde desolador, ninguém nas redondezas, uma tristeza imensa em acordar assim, sozinho e gelado. antigamente, a rádio ficava esquecida num canto de um quarto, a chuva entrava-nos pelas paredes, as bocas cruzavam-se desconhecidas. antigamente, no tempo em que cada um era para o seu lado, o rapaz comprou uma guitarra e musicou as suas listas de coisas a fazer na próxima década. a década passou, a música ainda não.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

crítica de poesia

uma daquelas histórias que repito sempre é aquela de eu ter estado sentado numa mesa de um café e ter escrito um poema sobre o facto de estar sentado na mesa do café a ser atendido por uma empregada, que não era uma rapariga loira, mas era uma rapariga de cabelo castanho claro. quando paguei a conta, entreguei o poema à rapariga. ela nunca escrevera na vida e olhou para o papel como qualquer coisa que aquilo não era. no entanto, prometeu colocá-lo na parede do café, onde já antes haviam sido colocados outros poemas, nenhum deles escrito no café nem sobre nenhuma outra empregada daquele café. naquele café, preferiam a poesia que falava das praias, dos mares, das rochas. e a promessa, que era vã, ficou por cumprir. felizmente, penso eu agora, até porque o poema, se bem me lembro, era mesmo muito mau.

rapariga loira

a história da literatura está cheia de escritores sentados em mesas de cafés. a história do mundo está cheia de escritores a trabalhar como empregados de cafés. alguns escritores tendem a ver nos empregados de cafés aquilo que eles poderiam ou desejariam ter sido. principalmente se os empregados forem raparigas loiras.

miopia

em cumpleaños, de césar aira, aparece uma rapariga loira, empregada num café, candidata a escritora. aparece e desaparece. a empregada do café anunciou-se como candidata a escritora por o ter visto escrever. aira põe a hipótese de ela se ter desvendado, apenas, por ser o seu último dia de trabalho. agora, há uma outra rapariga loira a trabalhar no café, mas esta não lhe fala de nada, para além das perguntas e pedidos habituais para estabelecer a relação comercial. foi a rapariga inicial que desapareceu ou foi aira que a deixou de ver? foi ela que lhe disse que escrevia ou foi ele que o imaginou? a miopia é a arte da literatura.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

eterna promessa

começo a entrar na idade de ser a eterna promessa* e já não adio mais a conversa, embrulho-me dia a dia em papel em branco, deixo-lhe a marca, ainda que imperceptível, os dedos gastam-se nas aventuras da cabeça. começo a entrar na idade que sempre esperei, não ter que prometer mais, é fazer ou não fazer, e se passas todo o tempo do mundo em casa, ainda assim, haverá sempre quem te diga na rua, "cuidado, não pises o senhor". começo a entrar na idade de saber como fazer, de não me atrapalhar com as mãos ou com as palavras não treinadas. agora, posso calçar os sapatos de sola, subir a rua, dar os bons dias, enfim, agora posso finalmente começar a gozar o facto de ser a eterna promessa.


* frase de samuel úria, numa das músicas que compõem o álbum nem lhe tocava, que será apresentado amanhã, em concerto, no teatro ibérico.

sangue

quando o tempo está frio, caminhas pela rua, a tua cara fica fria. quando o tempo está frio, caminhas pela rua, caminhas muito, até que a cara fica quente. vermelha e quente. em algum lugar te há-de estar a faltar o sangue.

imagem

a imagem mais bonita do dia de hoje é a visão dos montes e do céu na estrada entre santa cruz e as palhagueiras. quando passam pelas estufas, à esquerda, e os armazéns, à direita, há uma pequena recta. daí, vê-se o céu todo do interior do país, alguns montes a fazer de base. nessa imagem, a mais bonita do dia de hoje, eu vi como é límpido o frio. como tudo fica claro e definido. devo ter, com certeza, sorrido, perante a visão. a visão da imagem mais bonita do dia de hoje.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

sorte

não é a lei de direito que um assaltante tem contra si. é a lei das probabilidades. há uma possibilidade fodida de um assaltado vir a ter a oportunidade de ter o assaltante à sua mercê. num emprego, num tribunal, num encontro casual numa outra rua. é uma mera possibilidade, mas uma possibilidade que o assaltante ignora. e, ao ignorá-la, quando comete o assalto, está a encomendar ao destino a sua sorte. uma má sorte, previsivelmente.

tentativa

uma tentativa de assalto é uma tentativa de assalto. segues pela rua do bairro, dois tipos chegam-se ao pé de ti, pedem-te um cigarro, tiram-te as medidas, perguntam-te se és dali de perto. tu percebes a cantiga e dizes-lhes que o melhor talvez seja que eles desapareçam depressa, porque no bairro, há quem não goste de chatices. eles percebem também e vão embora. depois de uma frustrada tentativa de assalto.

pedido

um assalto é um assalto. mesmo que seja feito em forma de pedido. vais pela rua, é de noite, alguém se aproxima de ti, apresenta-te o currículo (acabado de sair da prisão), fala-te da vida (que não tem onde ficar), as condições físicas (uma das mãos sempre dentro do bolso), diz ao que vem (não quer chatices) e pede-te todo o dinheiro que tiveres. tu dás. não por seres bondoso, apenas porque fostea assaltado.

sábado, 12 de dezembro de 2009

dança

podia ser mais difícil do que aquilo que é, tempestade no mar, tu manteres-te de pé, podia ser impossível mas para ti não, aguentas-te aqui, seguras-me a mão, podia ser, ainda assim, tudo muito complicado, mesmo sem música, dançamos um bocado...

tio é

e mesmo que à tua volta reine o silêncio, tu continuas a bater o pé, os headphones a levarem-te para bem longe dali, enquanto cantas baixinho, "toda a gente diz que o tio é yé-yé, eu quero ser como o tio é", a voar, a voar, até o dia ser de calor, o sol brilhar, mesmo que à tua volta reine o silêncio, mesmo assim.

parentalidade

eu sou do tempo em que pensava ser necessário que toda a parentalidade fosse castigada, sou do tempo em que culpava pai e mãe de todos os males do mundo, do tempo em que nós éramos inocentes vítimas dos erros daqueles dois, até que cheguei ao tempo em que também eu fiquei velho, da idade de um pai e de uma mãe sem filhos, cheguei ao tempo em que puxo uma cadeira e me sento na varanda a ver as pessoas que passam, cheguei ao tempo em que a ternura pelo pai e pela mãe é impossível de controlar, sejam eles culpados ou não, inocentes culpados de tudo o que nos aconteceu, cheguei ao tempo disso, foi o que aconteceu.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

romances históricos - III

no início da década, ele ia muitas vezes à aldeia onde viviam os pais da sua namorada. eles não deixavam que eles se encontrassem ali quando não estava mais ninguém em casa, os vizinhos comentavam sempre que ele tinha o carro parado no pequeno largo. mas com a família presente, o namoro podia desenrolar-se com os costumes preservados. os pais ficavam no andar de baixo da vivenda, a mãe pela cozinha, o pai a arrumar as coisas pela oficina, enquanto ele e a namorada, fechados no quarto do andar de cima, lambiam os corpos e vinham-se, sempre, como é típico das boas famílias, com os costumes preservados

romances históricos - II

no início da década, ele e alguns amigos passavam o tempo no jardim da faculdade de psicologia a fumar uns charros, a dar de comer aos patos, a ler livros que poucos deles compreendiam. preferiam os dias de sol, quando se deitavam na relva e viam, de cinco em cinco minutos, um enorme a avião a passar-lhes sobre a cabeça. quando já conheciam todos os horários dos frequentadores do jardim, passaram a utilizar as horas mais mortas para levarem raparigas consigo. uma delas, sentou-se ao colo dele, abriu-lhe o fecho das calças e puxou-lhe o pénis para fora. ele sentiu um arrepio e olhou em volta, para confirmar que não havia ninguém. ela desceu a cabeça sobre o seu colo e provou-o. ele não reparara, mas um dos professores da faculdade de psicologia deu por, finalmente, bem empregue, o tempo que passava sentado no seu gabinete, a olhar o jardim pela janela.

romances históricos - I

no início da década, ela ficava online no mirc, a desconversar existências com supostos seres humanos do outro lado da linha. era uma idade onde a internet ainda se remetia ao preto e branco, onde uma fotografia valia o que valia, onde um telefone se trocava ao fim de semanas, meses. ela ficava online no mirc e a desconversa levou-a, várias vezes, a encontrar-se com desconhecidos. ao telefone era fácil inventar uma idade, um emprego, tudo o que fosse preciso. mas cara a cara, no parque das nações, a comer um gelado, era impossível esconder os seus dezasseis anos, o seu medo de ter ali, em frente dela, aquele gajo de vinte e três, obviamente desiludido com o resultado das semanas de conversa trocada no mirc.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

fazer

e depois eu digo, há meses que não escrevo um poema. e depois eu penso, todos os dias escrevo mais que um poema. e fico naquela indefinição de perceber o que faz uma ou outra coisa. se serei eu a decidir aquilo que faço ou se são as coisas por mim, decidindo o que lhes parece melhor sem me pedir qualquer opinião.

cabeça

a cabeça alimenta-se de sossego, páginas cheias de palavras, uma música que toque muito baixinho, um bom apoio para as costas. é disto, apenas disto, que eu te tenho estado a falar.

dois

faço a história pequenina, o suficiente, apenas, para cabermos os dois, num abraço apertado, mais nada, nem ninguém.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

nada com pimenta

algumas pessoas não percebem aquilo que lhes dizemos, isso é cada vez mais garantido para mim. vítima de um ataque hemorróidal, uma amiga anuncia, antes do jantar, que não pode comer nada com pimenta. "nada com pimenta". uma frase simples, inteira e clara, muito clara. durante o jantar, apercebe-se do picante na comida. afinal havia uma pitadinha de pimenta no molho, o suficiente para agravar o problema da amiga. a amiga passa-se, não come mais nada, sai de casa a anunciar a quem queira ouvir que cada vez gosta menos de estar com pessoas, raios e coriscos. uma bola no cu dá-nos uma visão muito concreta do mundo, isso é cada vez mais garantido para mim.

ler

custou-me cinco euros, mas foram cinco euros que valeram a pena. no meio de uma revista inteira onde se sucedem artigos desinteressantes sobre os amigos dos amigos, nuno ramos, recente vencendor do prémio portugal telecom, afirma: "li o hume inteiro, no outro dia, num feriado. não entendi porra nenhuma mas aquilo fica". e é tão simples reconhecer que de tudo aquilo que lemos, pesquisamos, aprendemos, a grande parte fica em nós como algo que não conseguimos explicar, mas que transportamos, transportamos para tudo aquilo que fazemos.

enfado

chama-se enfado: caetano veloso, perante a fastidiosa entrevista de inês pedrosa, diz: "é, eu tenho um talento especial para fazer essa coisa que eu faço". e desta forma, sem que a entrevistadora perceba, caetano veloso afirma ser como toda a gente, tem imenso jeito para fazer aquilo que faz, não precisa de o empolar, de o complicar, não precisa de mais nada, apenas fazer "essa coisa" que ele faz. mas a outra não percebe.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

mãe

se alguma vez te faltarem as palavras, lembra-te, desde o início o nosso entendimento existe sem o falar.

gaivota

em frente ao mar, pela manhã, os pescadores largam o fio pela água, enquanto as gaivotas esvoaçam em redor, pousam na areia, esperam que um dos pescados não venha certo e seja deitado borda fora, e a vida lhes ofereça, fácil, a refeição deste dia.

feriado

hoje é feriado e eu não escrevo, faço-me escritor burocrata, cumpro horários, saio da cama e tomo um duche, vou à rua, tomo café, leio o jornal, hoje é feriado e eu não escrevo, se tiver algo a dizer falo, se estiverem longe telefono, hoje é feriado e eu não escrevo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

lago ohrid III

a última visão são uns longos cabelos cobrindo o corpo. a água que gela todos os poros do desejo. agora sei, ficaste para trás, de volta ao lugar onde nasceste. nascer pode ser isso, pertencer de novo a tudo aquilo que nos pertence. como peças que se descobrem umas das outras, por artes de magia ligadas. a última visão é uma alma quieta, a minha em fuga. saberemos, ambos, encontrar a felicidade. cada um na sua margem do lago ohrid.

lago ohrid II

os pés submersos, no lago ohrid, a maré sobe. a água envolve já um pouco das tuas pernas. tu sorris, como quem volta a casa, como quem diz bom dia. os pés submersos, no lago ohrid, a maré sobe. a sol vai caindo lentamente no horizonte. tu sorris, tu estás em casa, pela primeira vez. voltaste ao lugar dos teus antepassados. abraçaste a taça por onde eles beberam. os pés submersos, no lago ohrid, eu tenho frio.

lago ohrid I

quando a maré baixou, no lago ohrid, voltou a ver-se a luz dentro das pequenas cabanas pré-históricas que hoje guardam os artefactos que pessoas como tu, como eu, usavam para a sua vida diária. imagina, agora, que daqui a algumas dezenas de séculos, o mesmo acontecerá com os pratos onde comemos, com a mesa onde eu escrevo, com os pentes com que escovamos os cabelos. imagina tudo isso, da próxima vez que pisares as tábuas que te levam às cabanas suspensas sobre o lago ohrid.

segredo

eu e tu, em segredo, o teu corpo deitado sob o meu que te domina, as minhas mãos que te prendem e te inventam pelo peito, as nossas vozes que se misturam, que se encostam, que se deliram, as minhas mãos e as tuas, o teu peito, o meu peito. eu e tu, em segredo, o sol quente pela janela, a tua pele e a minha pele e o teu cheiro e o meu cheiro, a tua roupa já esquecida, a minha desencontrada, as minhas mãos, as tuas mãos, as nossas cores por descobrir. eu e tu, em segredo, a tua língua, a minha orelha, a minha boca, as tuas costas, a tua pele e a minha pele e o nosso cheiro, o nosso cheiro, em segredo, eu e tu, o nosso feito.

descer

eu desço até onde nascem os sonhos, os gritos, os cabelos puxados. desço e conquisto a temperatura, o sabor. eu desço até onde correm os rios, os desejos, os gemidos. desço e arrebato a pele, o amor. eu desço e eu desço, até onde começa o nosso encontro, até onde se debate a nossa sede, até onde eu desço e eu desço.

apeteces-me

acordo de olhos fechados e na minha cabeça oiço-me dizer, apeteces-me na boca, de olhos fechados, no quarto escuro, na minha cabeça, apeteces-me na boca, descobrir-te a pele, agarrar-te os cabelos, morder-te o pescoço, apeteces-me na boca, de olhos fechados, de peles coladas, aproximam-se os sexos, apeteces-me na boca, na boca, na boca, em mim.

domingo, 6 de dezembro de 2009

obstáculos

para se poder respirar, seria necessário que entre os pulmões e o exterior nenhum obstáculo se atravessasse. no entanto, a própria palavra atravessasse, cheia de ésses e sibilinitudes (sibilinitudes, outra!), parece obstar ao nobre funcionamento destes órgãos. a palavra e os frios ou os ácaros que te obrigam a espirrar, na ânsia da sua expulsão. para se poder respirar, na perfeição, seria necessário que entre os pulmões e o exterior nenhum obstáculo se atravessasse. mas os obstáculos atravessam-se.

ainda não teoria

ensaiar uma vida ainda não é criar uma teoria. para isso são precisas curvas, inflexões, vozes. para isso são precisas invenções, sangue, suores. ensaiar uma vida ainda não é criar uma teoria. talvez uma palavra fora do sítio a fazer-se nova significado. talvez um olhar incompreendido como um mundo renovado. ensaiar uma vida, não. ainda não.

leitor de poesia

enquanto me perco no sol do sul da poesia de cacela, olho a janela e vejo o vento levantar árvores, a chuva inundar todas as ruas, as pessoas a abrigar-se do temporal. enquanto me perco no sol em mim, dentro de casa, na rua tudo é tempestade. os meus pés quentes dentro dos chinelos, o domingo a fazer-se noite. enquanto me perco na poesia de cacela.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

literatura portuguesa

sabes, ele disse que gostava muito de ti, mas não era verdade. no dicionário dele, gostar muito é apenas uma ponte para te invadir o castelo, como nos filmes sobre história medieval. foi, aliás, numa aula de literatura da idade média que ele te disse isso, entre uma cantiga de amigo e uma cantiga de escárnio e mal dizer. deverias ter percebido que não são sérios os rapazes que se declaram em aulas de literatura portuguesa I (da universidade clássica, o mesmo se poderá dizer dos rapazes que se declaram em aulas de literatura portuguesa III na universidade nova de lisboa). ainda assim, tu acreditaste. acreditaste que era possível o amor entre o mofo dos cancioneiros, entre os professores que metem piadas sobre o benfica entre os poemas e que falam muito bem de cineastas portuguesas que desistem dos filmes a meio. acreditaste, o suficiente para ires para casa dele no fim das aulas e te deitares na cama, semi-despida, entre os beijos e as mãos ávidas que ele te dedicava. só não acreditaste o que chegasse para ele te foder. quiseste guardar-te para um dia especial e isso, não há literatura portuguesa que aguente, tanta tesão assim desperdiçada.

todos os dias do verão

um verão inteiro a visitar-te para te olhar as mamas. um verão inteiro. ele fazia sempre o mesmo, logo após a hora do almoço, entrava na loja e dava uma volta pelas prateleiras, pelos expositores. foi logo no segundo ou no terceiro dia que ele te fez algumas perguntas avulsas sobre os livros. percebeste que ele podia estar ali para muitas coisas, mas não para comprar livros. mas todos os dias ele voltava, todos os dias do verão, para te olhar as mamas que o regalavam a sair do decote. a sua presença, um tanto inadequada nos primeiros dias, tornou-se habitual, quotidiana, agradável, quase. foi por isso que, apesar dele ter como único intuito olhar-te as mamas, tu sentiste a sua falta, no primeiro dia de frio deste ano.

engolir

quando engoles, dói. a dor é fogo, a garganta a arder. dói porque sabes, exactamente, aquilo que te magoa. sabes exactamente que sempre que ele aparece à tua porta, deixas que ele se sente no teu sofá, que fale da vida dele que pouco te interessa ( e que nunca recordas quando não estás com ele), que te vá inspirando alguma tristeza todo aquele seu abandono, até ao ponto que sentes que a única forma de o compensar ( e de o calar, também), é abrir-lhe as calças e engolir o pénis que pressentes duro. nunca pensaste como é que é possível que esta ladaínha que ele cria, sempre que te visita, o pode excitar. será, talvez, o acto reflexo de quem já sabe o que vai acontecer. tu também sabes, por isso te dói. dói, quando engoles.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ela

e ela debatia-se insanamente para se soltar do invisível que a prendia, gritava, gesticulava, batia com os pés, mesmo que nada a prendesse, nada a magoasse, nada que se visse, pelo menos. ela continuava a debater-se, a debater-se, e os outros, os que não viam, pensavam que se debatia consigo mesma e diziam-lhe, em mensagens, que não se preocupasse, que isso a nada a levaria. no entanto ela não parava. e os cabelos estavam despenteados, os olhos muito abertos, os lábios brutalmente separados e escorrendo saliva. e os outros eram ainda mais incapazes de compreender o que se passava com ela.

faca

a faca de peixe não corta carne, mas separa meticulosamente o agredado de massas e fios de bacalhau guardados dentro de uma patanisca. a faca de peixe não corta a carne, mas serve à partição dos bróculos. é um poder ilusório, mas eficaz. sentes que aquilo que seguras em tuas mãos serve os teus objectivos, mas sabes já que com ela não cortarás a carne, não será uma faca, quando precisares de uma.

memória

o olhar no olhar, mal entraste pela porta, o olhar no olhar e a dúvida a invadir toda a memória em busca do lugar, da situação, onde aquele olhar acontecera uma outra vez, o olhar no olhar, o restaurante cheio, caras e caras desconhecidas a descarrilar conversa sobre as mesas e a memória infectada e dormente, em busca, em busca, em busca de um momento que talvez nunca tenha acontecido.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

adivinha

se eu te digo o que imagino ao olhar, também já sei que o que te digo te faz pensar. e por isso repito, muitas vezes, sem reparar, que aquilo que penso esconder, muito rápido faço por revelar. se eu te digo o que imagino ao olhar, também já sei que o que te digo te faz lembrar. e por isso repito, tantas vezes, sem ignorar, que aquilo que penso esconder, muito rápido faço por revelar.

brancas

brancas brancas, que vos quero brancas, sólidas, suaves, descobrindo-se aos poucos, os meus dedos setas, os meus dentes ávidos, língua, saliva, amanhecer perpétuo. brancas brancas, que vos quero brancas, as coxas cheias de prazeres ínfimos, os cheiros mais quentes, as peles mais húmidas, língua, saliva, escura noite feita luz. brancas brancas, que vos quero brancas, plenas doses de intimidades loucas, ambas as bocas beijando-se em fúria, gemidos soltos, gritos eternos.

rosas

não fazemos cama das rosas que nos ofereceram esta manhã, fazemos antes a dança tribal de aproximação, beberagem incediária os fluídos dos nossos corpos. não fazemos cama das rosas que nos ofereceram os jardins, recolhemo-nos por entre a vegetação e são os teus dedos que deslizam sobre o vestido que mal te cobre. os dedos compridos arrastam-se pelas coxas, o olhar torna-se animal selvagem. não fazemos cama das rosas que nos ofereceram esta manhã. dos nossos dentes pendem folhas mastigadas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

desenho

e depois desenha-se o corpo como um resumo da noite inteira, passar as mãos pela tua pele e ser mais perto, observar todas as marcas da almofada, dos colchões, e todos os pequenos resquícios da minha barba em ti, como um caminho calcorreado lentamente, a chegar a cada ínfima nota de prazer, que é o encontro de nós dois neste desenho.

cinzento

o céu cinzento abranda os nossos passos se chegamos perto do mar, alguém diria o vento ou a água projectada de encontro aos nossos lábios. alguém diria o vento ou a vontade de voar, mas era o céu cinzento, a noite agora em dia, pelos céus, a abrandar os nossos passos já tão lentos.

manobra

tinha os dedos cheios do teu cheiro e era ainda de noite debaixo dos lençóis, a minha boca a pedir a tua boca, os olhos fechados, o calor da tua pele, e era ainda de noite debaixo dos lençóis, tinha os dedos cheios do teu cheiro, do teu cheiro, do teu cheiro.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

manhã

esta manhã descobri o granizo, o tom sépia da gasolina, queria provocar um incêndio, mas ninguém caminha pelo inverno rigoroso com um cigarro nos lábios, esta manhã descobri o amor, as sete nuances do arco-íris, os quatro piscas ligados ao fundo da rua, viras à esquerda e segues sempre a descer, esta manhã descobri como não acabar as frases, nos dedos a gasolina que evapora, mas se todos voltássemos a casa sozinhos e molhados, não seríamos mais tristes, nem mais abandonados, seríamos apenas nós próprios, esta manhã.

clementina

segura na mão a clementina, a frágil casca com ar dentro, antes do fruto, tocas-lhe a pele e sentes como está fresca, a frágil casca com ar dentro, antes do fruto, o fruto doce ou amargo, quando saberás, segura na mão a clementina, a frágil casca arrancada com carinho, o fruto, o fruto doce ou amargo, tu saberás, quando por instantes lhe pousares os lábios e desceres os dentes pelo fruto, assim usado e abusado, doce ou amargo, tu lá saberás.

mar

esta noite o mar subiu até às paredes recém-construídas do passeio marítimo. o mar subiu e alguém acordou cedo para se passear pela areia. alguém acordou cedo e deixou marcado as pegadas em círculos, pela areia. em círculos que ficaram desenhados enquanto a manhã abria, depois do granizo o sol, depois do sol os casacos despidos, depois de tudo isso o mar, de novo, a subir até às paredes recém-construídas do passeio marítimo.

domingo, 29 de novembro de 2009

popless - III

nós, os humanos, sabemos umas duas ou três coisas sobre o desejo. de como os corações aceleram e a respiração se inquieta. de como os dentes procuram os lábios para se mordiscarem, para se provocarem à dor que é a antecâmara do prazer. eu e tu fazemos agora por descobrir a ondulação do teu cabelo que envolve o pescoço e desce pelo peito. Tu vês-me e sabes, o meu olhar percorre-te, beija a tua orelha, a tua nuca, descobre o sol nas tuas costas, encosta-se a ti, oferece-se ao calor, ao calor que reprimes mordendo o lábio, tapando ou destapando o seio, poucos segundos antes do teu corpo, o meu olhar, as nossas mentes, serem uma bola de fogo posto nos lençóis onde caímos.

popless - II

este é o meu mundo, digo-te agora eu à cabeceira, enquanto tu invades o cenário que é a nossa intimidade e te balanças ao som do ritmo do nosso respirar. este é o meu mundo, digo-te, e os teus cabelos esvoaçam no jeito das tuas ancas, o teu corpo liberta-se, aos poucos, da pouca roupa que já o cobria. descubro no teu sorriso a simplicidade das pequenas coisas, fizemos um pacto com o desejo e sabemos bem do que são feitas as palavras quando as enchemos de vida e partilha. este é o meu mundo, digo-te eu, a alça do teu vestido escorrega como um rio que encontra a maré cheia, somos, agora, onda que transborda da cama do nosso encontro.

popless - I

os segredos contam-se ao de leve, eu não sei já onde tudo terá começado, de noite ou de dia, nós não fazemos as horas dos nossos próprios desencontros. era do silêncio a nossa relação agora inaugurada, do silêncio dos elevadores a subir e a descer nos arranha-céus, das bocas marcadas nos espelhos, pequenas vinganças que deixamos aos vizinhos que chegarão ainda mais tarde do que nós. nada em nós era contacto, apenas desejo dimensionado pelos olhares escondidos. no início, tu e eu, ainda éramos tão menos do que o prometido, tão mais pequenos do que aquilo que as explosões que sentíamos no interior dos nossos corpos pareciam já prometer.

sábado, 28 de novembro de 2009

forças

até que chegaram os dias em que as vozes mais altas ecoaram nos meus ouvidos e o meu corpo foi de novo arrastado pelas paredes e pelo chão até ao gabinete do director. um homem altivo, de voz colocada, que olhava para mim como quem olha o lixo. ofereceu-me um chocolate. disse-me que muito em breve eu estaria fora dali. que admirava o meu trabalho e a minha dedicação à arte. que tudo não teria passado, infelizmente, de um engano lastimável. e eu era todo olhos no chão, sem forças, nem para me animar, nem para acreditar que tudo aquilo acontecia, assim, como me parecia estar a acontecer.

reclusão

a manhã acordava água nos meus pés, uma água que não se percebia de qual origem, se do tecto se do chão. os meus pés acordavam gelos quebrados, os dedos carcaças de um gesto, o olhar sempre fechado. fechado estava eu no meu labirinto, sem saber bem como lá teria chegado, até. um labirinto premeditado, ainda assim. só com portas fechadas por todos os lados.

assobio

nenhuma música talvez fosse o sinal, o frio a entrar nos ossos, os passos marcados pelo eco das solas nas paredes que se estendiam em longos corredores. nenhuma música talvez fosse o sinal, ou talvez fossem as duas mãos enormes que me seguravam os braços, apertavam o corpo, por entre aqueles dois homens, mais que homens, troncos. nenhuma música talvez fosse o sinal, até que de uma parede se ouviu alguém que assobiava, alguém que contrariava o terror daquele silêncio com uma pequena melodia popular, um acto de resistência, um acto de vida, no meio do betão escuro.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

filosofia

queres mais cru, apaga o lume - dizia o homem do fogareiro - e as minhotas a dançar à volta da fogueira, mãos dadas, pés descalços, o vento a espalhar fagulhas por toda a parte, o pinhal a pegar fogo, os casais de namorados a fugir, nus, para se deitarem ao mar de ofir, queres mais cru, apaga o lume - dizia o homem do fogareiro enquanto se ria - e a maria vitória a tomar o palácio de fão enquanto se apagavam as luzes de toda a localidade, certos dias um gajo acorda estremunhado dos sonhos e não sabe bem em que realidade se encontra, os braços dormentes, as mãos sujas, as palavras todas misturadas dentro da cabeça, enfim, dizes sempre isto, pois, pois, pois, queres mais cru, apaga o lume - o homem do fogareiro tinha um bigode à artur jorge - e ao balcão um outro tipo de barbas compridas, as teses de mestrado a empilharem-se a uma ponta, os casais de namorados, nus e completamente encharcados, a beberem limonadas na esplanada, como se fosse verão e a tarde chegasse agora ao fim.

contraste

tinha sempre palavras muito pequenas para o que precisava de ser dito. todas as mulheres com a mania que são boas a lerem henry miller enquanto esperam pela sua vez no cabeleireiro. as febras a assarem na brasa, a telenovela da tarde, as conversas de todos os dias. todas as mulheres com a mania que são boas com a mania que escrevem coisas interessantes. os homens cheios de tesão atrás delas, as marias vitórias a gritar que se acabou a história. a febra ainda crua no momento da dentada.

um dia destes

um dia destes era capaz de pôr lisboa em viana do castelo, as minhotas a dominarem o conselho de ministros, o siza a fazer bibliotecas pelo país todo, as manhãs mais claras do que o sol, o vento forte, o mundo ao contrário, um dia destes.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

apetece

às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. às vezes estou aflito, outras vezes eu evito. em situações eu me levanto, horas depois eu fico em pranto. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. numa hora tão pouco, noutra hora tanto. a mão que me segura é a mesma que me empurra. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. alguns dias eu acordo-me, outros adormeço-me. a vida segue assim, a vida segue em mim. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece.

neve

um dia haverá neve sobre o mar, dizia o louco no miradouro. um dia haverá neve sobre o mar e os nossos corpos irão tremer de frio como terramotos. nesse dia, quem sabe, adivinharemos de olhos fechados os nomes das marés.

prédio

o prédio deserto não é deserto, é uma voz algures no andar de cima, passos silenciosos nas casas, um pássaro morto encontrado numa varanda. o prédio deserto não é deserto, o barulho das canalizações, os livros que se mexem nos armários, o vento nas janelas. o prédio deserto é ainda um resquício da enchente, uma música entoada pelo espaço, no vazio que ficou dentro do prédio, dentro de nós.

cefaleia

a cabeça não rebenta, a cabeça fica, fica sempre no mesmo lugar, por cima do pescoço, como se mandasse, a cabeça não rebenta, a cabeça fica, mas quando fica a doer, a cabeça dói, a cabeça dói, e tudo se rebenta à nossa volta, menos a cabeça.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

invento

inventam as coisas com oceanos dentro e acabamos por sentir que o oceano é o meio que reparte, que divide, que afasta. inventam as coisas com ar dentro e acabamos por sentir que o ar é o exclusivo, o medicamento, o veneno. inventam as coisas com gente dentro e sentimos sempre que vamos ficar de fora. inventam as coisas como se inventassem coisas e nós, não tendo como as mudar, perdemos o sentido da invenção.

voz

um fio de voz escorre pela parede de um mundo que ainda não existia, mas que nós já tínhamos, sem dúvida, criado na ausência um do outro. agora o encontro é o desencontro e tudo é uma fusão de vontades ou desejos que ainda não conseguimos exprimir. um fio de voz escorre pela parede, quem o provasse poderia dizê-lo doce, cheio de cama, sonho, aproximação.

desenho

o meu desenho é o tamanho da chuva contra a janela que ficou aberta. o imaginar da porta que se vai abrindo empurrada pelas gotas. as lágrimas que nunca existiram, como se fossem filhas do nada, no chão da sala. o meu desenho é esse momento que nunca aconteceu. que poderia ter acontecido. num dia como o de hoje, talvez.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

mais eu

o que se muda, muda-se, e nem sempre damos por isso: observo-me agora a ser outra coisa que eu não era, mais completa, sorridente, feliz, e eu nem sempre dou por isso, o que se muda, muda-se, ficou mudado, eu sou agora mais eu.

pedido

o pedido ficou atrasado, o telefone a tocar, como é que eu vou perceber o que me pedem, se quem me pede ainda percebe menos do que eu? o pedido ficou atrasado, o telefone por atender, os gritos a ecoar, a ecoar, na sala sala sala sala...

mim

tu estás em mim e eu estou quase a chegar. fazes as tuas magias, as tuas poções, eu apenas vejo e acredito. tu estás em mim e eu estou quase a chegar. apaga-se a luz, contam-se os passos, eu apenas sinto e acredito. tu estás em mim e eu estou quase a chegar. e por vezes dizes que não, mas também tu acreditas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

dom

o nosso discurso há-de ser todos os lugares vazios na plateia. por entre as cadeiras surgirão os passos despedaçados dos cadáveres. o nosso discurso há-de ser todos os silêncios feito um só. por entre os olhares que não existem a mansidão. e depois atearemos o fogo final das nossas gargantas. tossiremos um pouco, apertaremos as mãos. saíremos incólumes da grande aventura da vida.

oração

todo o romantismo é uma arma sobre uma secretária, um quarto dos fundos, um mapa sem norte. todo o romantismo é uma praia vazia, o vento sem gente, um delírio com os pés no chão. diz-me o maior dos teus segredos e eu dir-te-ei quem serás. a nós, ninguém nos poderá nunca parar. nunca.

cavaleiro

de lança quebrada entre os dedos, o cavaleiro segue a sua dança - o caminho que não se faz, a música que não se entende - o olhar mortiço, o cabelo despenteado, a barba por fazer. de lança quebrada entre os dedos, no fundo do mar. no fundo do mar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

morrer a escrever

não se morre a escrever, diria o anjo sobre o ombro do escritor, ninguém morre a escrever. entre o sopro da morte e a sua chegada, a caneta cai e os olhos do escritor concentram-se nas suas últimas palavras, naquelas que ainda conseguiu desenhar antes da fragilidade dos dedos e nas outras que ficarão por escrever. não se morre a escrever. morre-se a ler. morre-se a pensar no que se poderia ainda escrever se não fosse a morte, se não fosse a ideia de que falta sempre ainda qualquer coisa, o que nos torna ansiosos e incompletos, mesmo no momento da morte.

ae

uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: o nome da tua cidade aparece escrito num local próximo da uma lixeira, e a tua cidade passa a ser identificada como a própria lixeira.

ae

uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: pensas que vais na direcção certa e quando te apercebes do erro, já é tarde para voltares atrás.

ae

uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: um homem que chegou atrasado ao local do encontro, local que a mulher já tinha abandonado, por achar que ele não viria.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

segredo

não o foste mas desejaste, ser mulher sobre as chamas das pequenas cidades de província, aglomerados populacionais de primos e primas, rebentadas as costuras da gravidez sempre adiada, agora já sabes quanto custa um anúncio no jantar de família. nunca tiveste hora marcada, namoraste os rapazes como quiseste, foste um barco sem remos no pequeno ribeiro do porto novo, foste um inglês perdido à procura dos fortes das linhas de torres, foste um automóvel perdido no escuro das arribas e agora, agora, ainda me vais saber dizer quem és? não o foste mas desejaste, ser mulher. e não há segredo tão mal guardado que te ecoe mais forte dentro do crânio.

boutique

compra as peças de roupa que considerares necessárias para a inauguração do teu corpo, a cabeça perdida e um pacote de lenços de papel, sabes que na tua vida sempre houve espaço para duas velhas sentadas à porta de casa, a contar os automóveis, a beber das caleiras, e traz o teu vestido novo, a saia rodada, o que escolheste, e danças em cima da mesa enquanto as luzes se apagam, é a inauguração do teu corpo, o homem grande diz, e as velhas entram na casa e surpreendem-te, tens os pés em cima do vestido, repreendem-te, tu olhas a roupa nova amarrotada e choras.

terminal

tenta aprender o caminho desde a cama até à janela em passinhos de bebé, leva na mão um copo de vinho e uma bolacha, concentra-te, concentra-te, nada pode falhar, demora o tempo que quiseres, o tempo que quiseres, ensaia o discurso, mentalmente, apenas, e salta, salta até lá abaixo, para sempre.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

palavra

mais um dia, ou outro, eu vou ser capaz de escrever o que já foi dito, mas naquelas palavras que eu encontro no mais profundo dos silêncios. mais um dia, ou outro, no momento em que eu te demonstrarei, mais uma vez, que eu sou palavra, apenas palavra, nada que se possa tocar ou sentir muito mais do que um momento em nossas mãos.

talvez

talvez não seja bem a mesma coisa, dizer-te assim ou não dizer, fazer ou não fazer, talvez não seja bem a mesma coisa, a minha mão sobre a barriga, é de manhã, o meu corpo a crescer, a desfazer-se, enfim, talvez não seja bem a mesma coisa, ou então a vontade de fugir no fim das histórias que se inventam deste jeito.

estrondo

e o que eu guardo nas horas de silêncio, é o imenso estrondo de mim mesmo a correr atrás da explosão.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

a pensar

tenho andado a pensar no que fazer com as mãos, o corpo estendido e quente, os lençóis. tenho andado a cismar em algumas palavras com a boca, os olhos fechados, os domingos de manhã. tenho andado ocupado com a noite no dia, o dia na noite, a luz de todos os corpos nas varandas. tenho fumado cigarros, tenho esquecido compromissos. tenho escolhido não atender os telefonemas intercontinentais, tenho tentado desenhar mapas, tenho olhado a chuva no pára-brisas do meu carro. tenho ouvido a voz martelada do valter hugo mãe, tenho escolhido as coisas propícias aos dias cinzentos, tão propícias que chego a pensar que sou também cinzento por dentro. tenho escolhido não ler, não escrever poemas. e chego a sentir que tudo aquilo que faço se transforma, então, nesse longo poema de onde eu não serei capaz de sair nunca. tenho andado a pensar no que fazer com as mãos. o corpo quente. os lençóis.

mulheres

certas mulheres perderam o tempo, perderam a hora, perderam o pé, afundaram-se. certas mulheres falam falam falam falam falam, recuperando o nada estar recuperado alguma vez. certas mulheres cantam, fornicam, bebem, voam, vêem os noticiários, chamam nomes complexos aos maridos. certas mulheres casam-se, divorciam-se, engravidam, tiram cursos, não se calam. certas mulheres, apenas por terem visto a luz, não se cansam de apontar os máximos nos nossos olhos. noite e dia.

vento

o vento nos olhos, nos cabelos, o cheiro da terra molhada, a chuva ao longe, chegando-se a nós, os pés nas pedras, os pés na lama, esquecermo-nos talvez, que dia é hoje, de onde chegamos?, o vento nos olhos, nos cabelos, um cântico esticado até ao assobio, um corpo deitado sobre o terreno lavrado, quando se planta, aquilo que cresce, o que vai ser, o que vai ser?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

realidade

apanhas algum frio nas costas suadas, a constipação chega, respiras pior, as alergias aumentam, tomas os comprimidos, não passa nada, apenas entras numa nova realidade onde até escrever é já outra coisa, outra linguagem, outra língua, que talvez tu não percebas, mas quem te lê ignora por completo.

amarelo

a tua cara é isso mesmo, um pequeno boneco amarelo e sorridente, a piscar num écrã de computador, e se dizem que não gostam de ti, que querem palavras, tu dizes, minha querida, isto é o mais longe que eu consigo ir aqui sentado.

alerta

o fim-de-semana e dizem-te, a chuva lá fora e muito vento, alerta amarelo o país todo, pensas em casa, pensas em abrigo, a cabeça fechada no antí-histamínico a secar-te as narinas, respiras ou não respiras, depende dos momentos, dizem-te fim-de-semana, tu dizes adeus.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

encontro

se não houver outra coisa, inventemos o silêncio. e falemos dele a noite inteira.

vocabulário

se queres que te diga, escolho o fim do dia para beber do copo a maçã desfeita de adão. recomeço, mas não encontro, a intricada teia de penélope. se olhares agora, não acredito, apenas invento algumas novas palavras na fuga pelos rios que já secaram.

diatribe

é preciso saber inventar o animal, construir a casa, desenhar o caminho. é preciso saber a matemática, a ideologia, a solidão. tentar bater os dedos na madeira seca. poder agarrar as manchas do dia-a-dia. é preciso saber inventar uma nova língua. começar de novo. é preciso.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cara de anjo-mau

com os saltos altos e o passo decidido, parece impôr-se sobre a terra como as deusas, os olhos muito abertos que te comem ou consomem. a sua voz ecoa nas ruas onde a encontras, como se quisesse assustar as almas ou os pássaros. tudo isso seria da ordem da ameaça, não fosse tu saberes como se olha para além das fachadas das pessoas. não fosse tu saberes que se trata apenas de um anjo que deseja ser uma flor.

corpo de delito

o corpo do delito é um corpo escondido num largo pijama. é um corpo que não fala, recebe. um sorriso que se aumenta, que se inventa sobre as palavras. a origem e o fim das coisas, agora reiniciadas num novo formato. o corpo de delito é a promessa, o desejo. é o corpo que só bebe, que se encanta. um olhar que te distrai, que te inventa muitas palavras. o fim e a origem das coisas, num formato desconhecido ainda.

um estranho caso

mal se conheciam e desejavam-se. ela quase desfalecia junto dele, ele sentia-se tomado pela excitação na presença dela. na primeira oportunidade que tiveram para ficar a sós, ele agarrou-a pela cintura e beijou-a. ela deixou-se levar. não resistiu a abrir-lhe as calças e a senti-lo, ao mesmo tempo que ele deixava as suas mãos invadir o interior da camisa dela, os seus peitos tesos. mal se conheciam e, no meio da loucura, ela quis ter a certeza de saber quem ele era. pediu-lhe a identificação. ele achou estranho, mas mostrou-lhe. vestiram a roupa e foram embora.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

muro (III)

para alexander meyer, estudante de português em leipzig no ano de 1989, há uma canção de chico buarque que explica tudo. "foi bonita a festa, pá", repete ele a quem o queira ouvir falar da alemanha unificada. o que acontece é que a antiga rda é, como agora em tempos de crise, quase um "imenso portugal". desemprego e pobreza, abandono e esquecimento. alexander meyer não tem saudades das políticas de outrora, mas para ele custa-me a realidade de hoje. e muitas vezes ainda procura um novo muro, para que ele o possa saltar e começar a festa de novo. a festa bonita, pá.


für alexander meyer, portugiesischstudent aus leipzig im jahr 1989 erklärt ein lied von chico buarque alles. "schön war das fest, mann", singt er jedem, der etwas über das vereinigte deutschland erzählt haben möchte. die ehemalige ddr ist heute in zeiten der krise eine art "riesiges portugal". arbeitslosigkeit und armut, leerstand und vergessen. alexander meyer sehnt sich nicht nach der politik von früher, er leidet an der realität heute. und oft sucht er nach einer neuen mauer, die er überspringen kann, damit das fest von neuem beginnt. das schöne fest, mann. (tradução de michael kegler)

muro (II)

daniel haas, sentado em cima do muro, olhava o ar radiante da multidão a correr em direcção a berlim ocidental. algumas dessas pessoas experimentaram, pela primeira vez, coca-cola, alguma droga, a paixão desenfreada da liberdade. daniel haas, sentado em cima do muro, guardou três ou quatro pedaço de pedra, e voltou a berlim oriental, onde se apercebeu que o seu café de todos os dias estava encerrado. começou nesse momento, para daniel, o pagamento do terrível preço da liberdade. berlim oriental morta.


daniel haas sah, auf der mauer sitzend, die begeisterung der menschenmenge, die richtung westberlin rannte. manche dieser menschen probierten zum ersten mal coca-cola, irgendwelche drogen, die ungezügelte leidenschaft der freiheit. daniel haas saß auf der mauer, steckte sich drei oder vier steinbrocken ein und ging nach ostberlin zurück, wo er bemerkte, dass sein stammcafé geschlossen war. in diesem moment begann daniel den grässlichen preis der freiheit zu zahlen. ostberlin war tot. (tradução de michael kegler)

muro (I)

hanno balitsch não saiu de casa depois do anúncio da conferência de imprensa. vivia em berlim oriental e não saiu de casa. ouvia a correria nas escadas, a gritaria nas ruas, o entusiasmo electrizante no ar. hanno não saiu de casa, de rádio e televisão desligadas, a tentar esquecer-se do mundo. não o assustava a liberdade. assustava-o o fim da vida como a conhecia. e isso, para hanno balitsch, aos cinquenta e oito anos, era inaceitável.


hanno balitsch ging nach der pressekonferenz nicht aus dem haus. er lebte in ostberlin und ging nicht aus dem haus. er hörte das gerenne im treppenhaus, die ruferei auf den straßen, die elektrisierende begeisterung in der luft. hanno ging nicht aus dem haus, ließ radio und fernsehen aus, versuchte, die welt zu vergessen. nicht die freiheit erschreckte ihn. ihn erschreckte das ende des lebens, wie er es kannte. und das war für hanno balitsch mit seinen achtundfünfzig jahren unzumutbar. (tradução de michael kegler)

domingo, 8 de novembro de 2009

paradoxos

olhas pela janela, lá fora chove, chapéu-de-chuva na mão, a chuva pára. olhas pela janela, lá fora não chove, chapéu-de-chuva em casa, chuva na cabeça.

nuvem

o prédio ficava calado dias inteiros, como se nada houvesse a dizer ao resto do mundo senão este silêncio, esta imensa nuvem de início de novembro, onde uma alma aterra e, muitas vezes, nem sabe, nem quer sair.

desejo

agora inventa um domingo de chuva, com o vento a querer as janelas lá fora, e depois inventa uma cama onde nos deitamos, e nos agarramos como se agarram os livros, e não adormecemos nunca de tanto nos termos um ao outro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

choro

no fundo, acabamos sempre por chorar a nossa dor, nunca a dos outros. mesmo que a nossa dor seja causada pela dor dos outros, é a nossa dor. é a nossa dor que choramos.

pessoa

aquela pessoa de quem nós gostamos, às vezes, deixa de ser como ela é. aquela pessoa de quem nós gostamos, às vezes, torna-se imprevisível. aquela pessoa de quem nós gostamos, às vezes, toma as decisões erradas, segue por caminhos incertos, torna-se alguém que nós mal conhecemos, e que terrivelmente, é aquela pessoa de quem nós gostamos.

coração

é preciso muito pouco para desligar um coração. uma palavra que não se disse, um gesto que não se fez, um olhar do qual se fugiu. é preciso muito pouco para desligar um coração. um silêncio inapropriado, um passo apressado, uma paragem que ficou vazia, mesmo quando estava lá alguém.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

biochip


o segurar da mão ficou registado, impressão digital reconhecida. fizemos do corpo um repositório de memórias exactas, quando a regra era sobreviver apenas no meio da névoa, passados os dias. o segurar da mão ficou registado, o gesto mínimo do carinho digitalizado. não conseguimos dizer do sabor ou do tacto do outro, mas sabemos todos os segredos, todas as chaves, todas as entradas do mistério máximo da ilusão.

transplante

não sabes onde começa o homem e onde termina o animal. ouves apenas o respirar, respirar, cronometrado pelo músculo-coração. não sabes onde começa o homem e onde termina o animal. transplantaste, não só o corpo, a ética, a moral, caminhaste despido pelas fronteiras e, da tua voz, não sai agora razão, apenas, o bater do coração.

imagem de evi apostolou

regeneração



chegará o dia em que dirás, lembrar o corpo?, e seremos apenas sorrisos pixelizados. não bastará o toque, o abraço, o coração - tudo será feito de outra forma, como se a regeneração das almas dependesse da terra e tudo se misturasse como nunca tivesse sido diferente.

imagem de evi apostolou

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

e qualquer coisa em jeito de epílogo

às vezes a realidade é bem pior que a ficção. às vezes temos que enfrentar aquilo que preferíamos não ver. isto porque, ao entrares aqui, vais ler alguns textos que te farão suspirar de tão bonito parecer o mundo quando acontece na província. já muitas vezes me acusaram de ser demasiado depressivo, negativo. agora olho para alguns textos e vejo as coisas demasiado solares. nunca me senti nem de um lado nem do outro. tenho andado no meio, às voltas, de um lado para o outro. talvez por isso pise em muito lado. alguns desses lados são território minado. mas enquanto não explodir, ainda se pode passear.

três histórias sobre bibliotecas (III)

os miúdos chegam-se ao sonho. tocam os livros com os olhos muito abertos. ouvem a escritora. naqueles miúdos ainda não existe um leitor. mas já existe tudo o que um leitor precisa para o ser. a curiosidade, a imaginação e o sonho.

três histórias sobre bibliotecas (II)

da janela da biblioteca vê-se um jardim que ainda não existe, pelas janelas grandes e abertas, um riacho que ainda está por nascer, as árvores que estão por plantar. da janela da biblioteca, vê-se tudo isto que ainda não existe, tal como lá dentro dos livros, onde tudo está apenas à espera do nosso olhar para crescer mundos inteiros.

três histórias sobre bibliotecas (I)

podemos viver num mundo antigo, um mundo que já não existe. talvez uma das coisas mais poderosas que nos podem dar é um livro sobre lugares que já não existem. é como ter à mão a ficção do real e sentir que a podemos construir nos nossos dias como nos apetecer. lembrei-me disso ao encontrar na biblioteca do cadaval o livro da colecção povos e lugares sobre a u.r.s.s. encontrei o livro e fiquei a imaginar que algures no cadaval, alguém vai pegar naquele livro e imaginar coisas incríveis no país do sovietes. como um novo tintin, mas agora fora dos livros.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

broa

a tradição de família leva todas as irmãs até ao forno da casa paterna, uma casa que agora é sobretudo isso, o velho forno familiar. fazem a massa, juntam-lhe os frutos secos, e agrupam centenas de bolinhos de massa sobre a mesa grande da cozinha. depois esperam que cada uma delas coza o suficiente, enquanto vão falando da vida, dos filhos e dos maridos, dos patrões e dos colegas de trabalho. ao fim da tarde, as pequenas broas são distribuídas em sacos, que cada uma leva para casa, onde as guardam e as distribuem, por sua vez, a familiares e amigos. a tradição de família é isto mesmo. fazer crescer sorrisos, a cada ano, com uma pequena broa de festa.


com um agradecimento à natália (e ao paulo, pelo transporte)

pequeno-almoço

demorou quase nada a preparar o pequeno-almoço, sempre de ouvido nos sons que eu fazia, do outro lado da parede, no quarto. veio até mim a sorrir, ainda com um pedaço de pão quente nos dedos. sorriu-me como quem faz nascer o sol. e eu acordei outra vez, retemperadas as forças que nos ligam aos lençóis cada manhã.

francesa

a poesia é para comer, dizia a natália. não sei se aquela francesa sabia disso. o que é certo é que cada página lida era suavemente arrancada do livro, guardada debaixo da toalha da praia, como um fruto que se colhe de uma árvore, se leva para casa, se guarda na fruteira. a poesia é para comer, dizia a natália. mas aquela francesa comia páginas de romances, todas as noites de verão, talvez com umas pequenas rodelas de pepino, uma pitada de coentros e sal.



para o zé abrantes

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

cor

dirias da tua aldeia deserta. mas a cabeça cria e multiplica, infinitamente, o espaço em branco, em branco, colorindo-o, colorindo-o.

mar

o barulho do mar é o barulho do mar. mas também: os teus olhos fechados, o teu corpo abraçado, a tua voz adormecida, o calor, o calor, o calor, em dias de tempestade.

voar

lá fora o vento. tu não descansas, corres. corres, quieto no teu lugar. parado. lá fora o vento. a voar. tudo.

domingo, 1 de novembro de 2009

pão-por-deus (III)

alguns quintais têm cães. algumas campaínhas não funcionam. algumas portas não se abrem. algumas pessoas não são simpáticas. mas às onze e meia começou a chover. haverá mais pão-por-deus no próximo ano.

pão-por-deus (II)

a senhora que me vende fruta todas as semanas, deu-me um saquinho de figos secos. pão-por-deus, disse ela. e sorrimos os dois.

pão-por-deus (I)

nunca tinha pensado nisso, mas hoje, os miúdos de santa cruz andavam pelo mercado ao pão-por-deus, pedindo em cada banca qualquer coisinha que coubesse no saco. e os sacos iam cheios.

sábado, 31 de outubro de 2009

recado

não digas nada. basta que olhes, ao longe, até onde a tua vista alcançar. não digas nada. olha lá longe, respira fundo. podes ficar assim...

doces

adormeceu a pensar que ainda faltava comprar os rebuçados para o pão por deus. para que os miúdos que lhe tocassem à porta fossem felizes com doces. ainda pensou escrever-lhes poemas, mas o que valeria para um miúdo um poema? adormeceu a pensar nos rebuçados. sonhos doces passíveis de serem dados a toda a gente.

outubro

final de outubro e sol, janelas abertas e as palavras, as pessoas nas ruas e os sons, a brisa do mar e o sossego, final de outubro e manga curta, suores apaixonados e o teu cheiro, peles que se beijam e um sussuro, adormecer tardes inteiras.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

setara

setara hussainzada é uma das concorrentes ao programa. vem da cidade de herat. mais do que ser uma das duas únicas mulheres selecionadas para a última fase do programa, setara é a única pessoa que está disposta, mais do que a ganhar o dinheiro, a transformar as mentes daqueles que acompanham o seu percurso. setara, para além de cantar, insiste em fazer tudo aquilo que a música lhe sugere. por exemplo, dançar. quando é eliminada, aproveita ainda a última canção a que tem direito para dançar e destapar os cabelos. ora, isto é considerado um atentado aos bons costumes. por esse gesto, como se verá no documentário de que falo, setara será tratada como uma "puta", uma "desavergonhada", alguém que deve "morrer". e não são só os mullahs que pensam assim. jovens entrevistados na rua, que nada devem ao look ocidental. mesmo alguns dos participantes do programa. enfim. o modelo pode transformar por fora, mas o mal que está dentro das pessoas, esse, ficará para muitos anos. como já se viu, aliás, em muitos outros países nossos conhecidos...

tesouro

o vencedor do afghan star recebe cinco mil dólares. o equivalente a dez salários anuais médios. vencer, mais do que dar direito a uma carreira, é algo equivalente à descoberta de um tesouro. e é sobretudo nisso que a maior parte dos concorrentes pensa.

estrela afegã

afghan star é um programa da tolo tv, um canal de televisão afegão que pretende revolucionar a vida musical afegã. numa sociedade onde, há bem pouco tempo, era proíbido todo o tipo de música ou manifestação artística, percorrer o país há procura de talentos musicais é mais do que uma aventura, o propiciar de um sonho a milhares de jovens (e menos jovens). tudo isto pode ser visto no documentário com o mesmo título. uma pessoa estranha a cópia de modelos tão gastos nos países onde a liberdade é tida por garantida. mas esse modelo num país como o afeganistão, é mais que uma novidade, é um terramoto social.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

livro ilustrado

esta manhã encontrei a escritora ana meireles a passear com a neta. quando lhe falei da biblioteca a cheirar a novo onde a vou levar na próxima semana, pareceu-me que o sorriso dela e o da neta, eram simplesmente um mesmo sorriso, enorme e colorido, como um livro ilustrado.

sonho

numa biblioteca podes sempre encontrar um desconhecido e levá-lo para casa contigo. fazer velhos amigos que se mantém fiéis a ti. descobrir, pelas marcações dos pedidos, quantos antes de ti leram aquele mesmo livro. numa biblioteca o sonho não tem como ficar preso. é um pássaro sempre pronto a voar.

biblioteca

uma nova biblioteca é um campo onde se plantam sonhos. pelo menos é o que sinto quando entro na biblioteca do cadaval, acabada de inaugurar. entro e penso em tudo o que é possível fazer dentro daquele espaço a cheirar a novo. quantos miúdos e miúdas vão andar por entre as prateleiras a descobrir livros, como eu já fiz, e continuo a fazer, sempre que entro numa biblioteca. uma biblioteca é um campo onde o homem cresce.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

cacela

se um homem se sentasse no posto de observação da fortaleza de cacela durante trezentos anos, poderia perceber como a natureza constantemente se altera, mas o homem não.

parede

pudesse a voz dos homens sobreviver ao tempo, e talvez das paredes ainda se ouvisse o choro das mulheres, os gritos, a medida exacta da dor e da pobreza escondidas atrás das paredes pré-montadas a mando do rei sebastião josé.

arenilha

no lugar onde ninguém queria estar, por estar distante de tudo e de todos, à mercê dos piratas, manda o rei sebastião construir uma cidade iluminista e inaugura-se assim o extremo sul-oriental de portugal.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

corpo

aguardo pelo outono como os outros o sol da primavera. deixo crescer as barbas, corto o cabelo. levo à varanda as mantas e os cachecóis. sorrio perante o som da chuva quando adormeço. aguardo pelo outono como os outros o sol da primavera. e a voz é um sussurro puxado de dentro do corpo em transformação.

poemas

do modo como nascem os poemas, não nascem as línguas. nem as marés, nem as ideias. a noite fecha-se sobre as cabeças, algumas velas acesas, os olhos atentos. do modo como nascem os poemas, não nascem os homens, as mulheres. há quem segure uma guitarra, quem beba do copo, quem mastigue, lentamente, o bolo de aniversário. do modo como nascem os poemas, não nasce a solidão. há sempre vozes dentro das cabeças, dentro dos corações. algumas mãos por segurar. um caminho por fazer. enfim, haverá sempre algo que escrever. do modo como nascem os poemas.

oito

oito da noite e na estação de comboios as pessoas estão espalhadas e inquietas. umas esperam o regresso a casa, outros o encontro marcado. olham os telemóveis, as linhas vazias, escutam, atentamente, as mensagens repetidas nos altifalantes. oito da noite e a rua fria, outono que chega, ameaça de chuva, nuvens no horizonte. pessoas sozinhas, à espera. oito da noite.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

últimas ceias (V)

querias que eu te dissesse para não ires embora, mas tu irias de qualquer maneira. eu não te disse nada.

últimas ceias (IV)

eu era a última praia do verão, levaste-me para o quarto, tiraste o vestido, fizeste amor comigo, falaste-me da tua vida. eu ouvi tudo, dei-te um beijo, foste embora.

últimas ceias (III)

eu amei-te durante o primeiro ano. tu amaste-me durante o segundo ano. fodemos como selvagens, em todo o lado. quiseste ser minha amiga, minha amante. eu quis que desaparecesses. nunca nos resolvemos mesmo. até ao dia em que já não éramos os mesmos e tu não percebeste.

últimas ceias (II)

fomos sempre melhores quando não fomos um do outro. quando me abriste as calças numa noite de chuva. quando bebemos vinho, nus, a ver um filme português. quando me sorris e me viras as costas, uma vez por ano.

últimas ceias (I)

este não é o primeiro poema que te escrevo ao som do wish you were here. há muitos anos atrás escrevi-te um, com uma caneca de cerveja na mão e a chorar baba e ranho, num bar que já não existe. é estranho estares aqui, se eu nunca sequer te beijei. mas é a minha forma de te dizer que estive errado. quis libertar-te da gaiola, fazer-te voar. tu é que não querias isso. já havia demasiada poesia na tua vida para te sentires segura ao meu lado.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

jogador de futebol e futurista (IV)

ele lia um livro enquanto ouvia o relato. ele gritava golo no meio de versos de poesia. ele comentava a teoria enquanto faziam um directo do marcolino de castro em santa maria da feira. ele não estava cá com merdas.

jogador de futebol e futurista (III)

por muito que procurem um homem romântico, o que algumas mulheres ainda não descobriram, foi o futebol.

jogador de futebol e futurista (II)

imaginas um livro por um pequeno resumo que leste. esse resumo inspira-te a) a comprar o livro via internet e b) começar a escrever algo no formato sugerido. entretanto o livro chega, percebes que não era nada disso, que talvez fosse algo disso, estás indeciso. adormeces e acordas a pensar no assunto. lembras-te de uma frase, de uma ideia, algo assim. no caminho para o trabalho, de autocarro, lês o livro. descobres uma frase, a frase. de repente encontras um sentido para tudo. alguns diriam, é a vida. tu sabes que, mais uma vez, é apenas literatura.

jogador de futebol e futurista (I)

se há uma coisa que justifica a existência de coisas como o S.L. Benfica é o gosto que uma grande parte das pessoas tem em ser enganada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ídolo

podes ser o ídolo do teu vizinho, do teu primo, do teu namorado. podes ser o sonho da tua mãe, da tua irmã, da tua avó. podes ser o melhor da tua rua, do teu bairro, da tua aldeia, talvez. podes ganhar os prémios do município. podes ainda aparecer num jornal nacional, ter uma referência em blogues estrangeiros, seres entrevistado por ocasião de um evento social qualquer. se tiveres boa cara, apareces nas fotografias. mas não vales nada. um dia desapareces e ninguém se lembra de ti. o máximo que podes esperar é que a tua imagem perdida pelo youtube possa ser recuperada para que gozem contigo. para que gozem com o que tu quiseste ser e nunca conseguiste.

sonho

"toda a gente tem direito ao seu sonho, este é o sonho dela". mesmo que a menina se esganice toda para acertar uma nota que a sua voz não alcança. vem a família toda do estrangeiro, apoiar o sonho da menina. a menina sonha o impossível. pensa que o estrelato chega quando estamos deitados na cama a ouvir músicas sacadas da net ou a trocar figurinhas no hi5. ninguém, nem ela nem a família, põe a hipótese de investir o dinheiro gasto nas viagens na formação do eventual talento da menina. aposta-se na vida como se jogasse no euromilhões. e perde-se sempre.

crítica

não podes dizer que não gostas. já ninguém aceita que o faças. qualquer um, por mais imensamente medíocre que seja, não aceita que alguém o critique. que alguém diga que ele não presta. pois se "alguns amigos dizem que escrevo tão bem". se "alguns amigos dizem que canto tão bem". não podes dizer que não gostas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

teoria da vingança

depois perguntas-me: mas se partires não vais deixar que esse peso saia vencedor? eu apenas te digo que permitir a repetição do abuso encerra duas consequências: o afundamento no poço de merda onde estão pendurados os abusadores e uma reacção, por mais tardia, mais violenta.

não existir

muitas vezes pensamos que nos apetece ir existir para outro lado. normalmente, quando no lugar onde estamos um pesado pé nos vai quebrando os ossos um a um. tentam, à força, fazer de nós invertebrados. nós não deixamos. e partimos.

existir

alguém que existe e deixa de existir pode criar um vazio no seu lugar. no entanto, se alguém que nunca existiu deixar de existir, só fica a sombra marcada no chão onde o suposto existente pensou um dia ter estado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

leoa

muitas vezes, a mãe leoa, na ânsia de defender as crias dos inimigos, acaba por os esmagar com as suas próprias patas.

convicções

porque a velha mania de que há uma consciência pública que se pode meter nas consciências privadas de cada um é, hoje, um conceito perfeitamente evitável. ao tentar apontar para aqueles que fazem um mau uso dos instrumentos de fé, saramago atira aos crentes. e isso é tão inaceitável que só pode ser visto como um sinal mais de senilidade.

conversa

saramago é apenas uma daquelas velhas do lar de idosos que, apesar do andarilho, quer ir dançar para o baile da associação.

sábado, 17 de outubro de 2009

sozinho

ainda assim, para tudo, são precisos dois. ninguém é, seja o que fôr, sozinho.

pés de barro

corria atrás de bandidos como um super-herói, de certeza que algumas crianças tinham cartazes com a sua figura colados na parede, sonhavam ser como ele, um dia. quando se descobriu que era ele próprio que pagava a realização dos assassinatos, muitos pensaram que caía um mito de pés de barro. mas era apenas má teoria da literatura.

minado

queremo-nos convencer de que somos magnânimes, mas apenas minamos o campo para que os outros façam explodir as bombas, enquanto continuamos agachados chorando a sua morte.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

garagem

se andares muito devagar, ao sol das duas da tarde, sentes o mundo parado. garanto-te. como as portas de garagem que não são pintadas há muitos anos.

cidade

a minha aldeia deserta tem prédios. prédios que cresceram em volta do mar. e no meio dos prédios há lojas que vendem jornais, cafés, uma cara conhecida que se cumprimenta. a minha aldeia é como uma cidade abandonada. eu podia ser feliz numa cidade abandonada.

aldeia

a minha aldeia deserta tem um mercado onde se compra peixe fresco pela manhã. há coisas que nos chegam assim. pequenas e seguras. como o sol de hoje.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

o médico

só um médico saído dos livros de vila-matas pode falar assim. eram quatro e meia da manhã, ela entra de rompante pela sala de espera das urgências e diz em voz pausada, "familiares de rosa conceição". mais tarde, ao ser atendido por ele, pude perceber a minha desconfiança. analisou-me, apenas, com o olhar e com algumas perguntas. escreveu imenso no computador, enquanto eu estava deitado na marquesa, certamente um e-mail para algum hospital psiquiátrico em genéve. adivinhou (pois) uma lesão lombar só com o olhar e enganou-se no tratamento que me diagnosticou. passados menos de vinte minutos, entra na sala onde estou a tratamento e pergunta, a sorrir, se já estou curado. pois! (parte dois). deixa-me a sofrer dores intensas até de manhã, quando volta a entrar na sala e só faz um sorriso impotente perante a minha dor. pelo penteado dir-se-á que não terá dormido, apenas continuado a ler, ferozmente, cartas escritas por colegas do estrangeiro. tinha um sotaque estranho, poderia ser castelhano, poderia ser de outra qualquer origem. depois das nove da manhã desapareceu sem deixar rasto, e dos seus quinze doentes apenas deu nota à médica que o substituiu de três deles, aqueles que lhe pareceram as melhores para os personagens do romance que anda a escrever. dois homens estranhos, vestidos de preto, procuraram-no no hospital durante o turno seguinte, mas, por estranho que pareça, ali ninguém reconhecia, sequer, o nome dele.

urgências

durante nove horas numa sala de soro, onde vai entrando e saíndo gente num ritmo lento, durante a noite, e cada vez mais regular, assim que nasce o sol, aprendendo o que é a cidade onde se vive. pode saber-se muito de um lugar, mas não tudo enquanto não se passa umas boas horas nas urgências de um hospital. a carência dos mais velhos, o medo dos mais novos, o violento ar de habituação de quem lá passa muitas vezes, a capacidade de resposta dos enfermeiros (pau para toda a obra), a desorientação dos medicos, enfim, um outro lado da cidade, assim, descoberto, nas catacumbas de um hospital.

moscas

dizia o juvenal, numa cadeira ao lado da minha, com o aerosol a cobrir-lhe a face e o soro a entrar na veia, "um hospital com moscas, luís, como é que se pode ter um hospital com moscas, aqui?"

diagnósticos

por vezes, nos corredores dos hospitais, mortos e adormecidos são seres demasiado parecidos

terça-feira, 13 de outubro de 2009

tempo

não apostes nunca na velocidade, nem na rapidez. aposta na longevidade. apercebe-te de há um sabor chamado maduro.

cabeça

agora podes dizer que mesmo que o corpo pague, a cabeça continua a cobrar.

caminho

uma estrada é sempre uma estrada, mesmo que estejas enganado no caminho.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

caos

a cidade organiza-se em torno das pessoas que lá vivem, talvez, mas todas as cidades parecem esquecer-se das pessoas que lá passam. basta um atraso de alguns minutos de um comboio, um comboio que traz muita gente que não vive mas passa pela cidade, e toda a zona envolvente da gare do oriente se transforma no caos. um caos momentâneo, mas um caos. dez minutos depois volta a ser domingo à noite na cidade.

dor

ganhas consciência do teu corpo quando o corpo te dói. quando uma dor aguda te puxa. tens que ficar quieto, durante alguns segundos, aguardando que a cólica acalme. isto dá-te um novo ritmo, uma nova sensação do que é a realidade. agora és tu e o teu corpo. e mesmo a imaginação só voa nos intervalos.

domingo

há um traço na cara das pessoas que passeiam aos domingos, em ruas que eu conheço. um traço que denuncia o cansaço, o trabalho intenso, a sobrevivência. a maior parte do mundo sobrevive e nem sequer passeia aos domingos. a proximidade desta realidade puxa-me à realidade. a de que nenhum projecto político se lembra de que, o mais importante, seria permitir que estas pessoas tivessem uma vida, não uma sobrevida.

domingo, 11 de outubro de 2009

anunciação

não se poderá falar, portanto, de alguma coisa com propriedade que esteja a nascer desse enunciar palavras. o corpo é frágil e a mente fértil de ideias. o corpo faz-se por parvo. e goza ou sofre, conforme as horas e os dias que passam. diria que somos humanos, terrivelmente humanos. mas pode ser que seja, apenas, literatura.

vida

percebes, assim, que mesmo a palavra recortada e separada de toda a sua essência, tudo continua a nascer do singelo gesto do enunciamento. não é preciso mais nada. uma palavra, morta ou viva, é como adubo nas raízes.

palavra

aquilo que tentas fazer é espremer as palavras até ao ponto em que elas perdem todas as ligações com a sua origem. um mundo feito exclusivamente de palavras. aquilo que tentas fazer é dar a tua existência ao sacrifício, de forma a radicalizares a experiência de tocar a palavra. e depois adormeces, de madrugada, extenuado e seco.

duas armas

não se percebe bem o que terá acontecido, até porque os testemunhos se contradizem. mas numa coisa parece haver acordo; os dois homens, o morto e o outro, já há alguns dias que andavam armados. candidatos armados em campanha eleitoral. o quadro do país é este. que fique assente.

apenas a arma

a eleição nem chegou, sequer, a começar. nos boletins, o sangue. na memória, nódoas que não se apagam.

o voto e uma arma

os membros da mesa ainda estavam a conferir os boletins de voto quando um dos candidatos entrou na secção de voto e disparou a matar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

rainha

na fotografia está um anjo a segurar-lhe a cabeça adormecida (morta). um anjo que parece ser cuidadoso mas é um anjo vingador. que vinga o mal que lhe fizeram em vida e o ultraje depois da morte. ser coroada assim, cadáver, esqueleto, é retirar da mulher todo o prazer que lhe é devido. antes ser rainha na eternidade do que no mosteiro de alcobaça.

silêncio

quantas vezes no não-dizer está a afirmação mais forte?

dicionário

às vezes a palavra foge do seu sentido, da sua intenção, transformando-se em bomba nas mãos de quem a recebe. deveria existir um dicionário que resolvesse estes casos.

inês

mosteiro de alcobaça

estando dona inês dormindo...

fotografia: luís filipe cristóvão

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

hertha

a única grande vitória que o sporting tem nas competições europeias frente a equipas alemãs é contra um grupo de rapazes que se identifica por um nome de menina.

herta müller

eis chegada a hora de tomarmos o prémio nobel por aquilo que ele realmente é: o sublinhar do pormenor. a academia está mais interessada em dar a conhecer autores que são importantes em pequenas partes do planeta do que aqueles que ficarão na história da literatura pela sua importância e mediatização. imaginem só a trabalheira que os senhores da academia iriam ter se o critério fosse a qualidade...

sair

sempre que regresso ao el corte inglés de lisboa penso que aquele centro foi feito para uma pessoa se perder dentro. e a verdade é que ontem perdi-me mesmo. tenho o hábito (uma questão de segurança, diria eu) de fixar o lugar por onde entro no centro vindo do estacionamento, para que possa descer pelo mesmo lugar, e assim encontrar facilmente o meu carro (isto resulta). o problema é que dentro do el corte inglés, se subirmos por um elevador, corremos o risco de nunca mais o encontrar. foi o que aconteceu. e só ao fim de um quarto de hora às voltas e de ter subido a pé do piso zero ao piso três consegui encontrar o elevador que fica mesmo junto ao expositor de desporto. isto poderia ter outra leitura qualquer. mas não tem. uma pessoa perdida não tem vontade de comprar nada. só de sair dali o mais rápido possível. ouviram, senhores do el corte inglés??

línguas

fui duas vezes a apresentações de livros de richard zimmler. das duas vezes, zimmler realçou a importância de se ter mudado para portugal. entrar numa segunda língua, ter que a usar diariamente, para trabalho, na rua, fê-lo sair de si próprio para encontrar um segundo lugar onde ser ele mesmo. quem viaja entre línguas corre sempre o risco de se encontrar em ponto maior.

idade

se o rapaz bonito luta a vida inteira por manter uma réstia de beleza na cara, o rapaz feio que teve o trabalho de aprender a dizer as coisas certas sabe que o tempo está do lado dele.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

cavalos

acordou com uma ideia na cabeça. no entanto, durante o banho, o pequeno-almoço, a viagem até ao escritório, várias outras ideias se foram misturando à primeira, competindo com ela, desvirtuando-a da sua origem, aparentemente tão perfeita na forma. as ideias concorrem assim, como cavalos, numa corrida.

identidades

guardava numa pequena caixa, no seu quarto de sempre, uma quantidade incerta de papéis onde ele escrevera textos adolescentes e apaixonados. um poema inicial é também um poema? talvez tenhamos que nos precaver contra estas dúvidas que nos assaltam a cada dia. um poema publicado é um poema de luís filipe cristóvão. um poema num papel poderá muito bem ser, apenas, um poema do homem que queria ser luís filipe cristóvão.

identidades cavalgantes

começa na cabeça onde uma palavra se junta a outra palavra, formando a frase. podemos tentá-lo nos lábios, mas é a mão que conduz a caneta pelo papel, marcando a tinta o poema que acaba de nascer. e quando rasgas o papel, é o poema que estás a destruir.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

calado

queria ser capaz de te dizer numa frase o livro da ana luísa amaral, o mosteiro de alcobaça e o abraço na cama, dizer num poema, talvez, todas as leituras, todas as conversas, todos os passeios a pé, ser capaz, enfim, de sintetizar aquilo que não cabe no resumo, apenas no viver, viver a cada minuto, saboreando-lhe as arestas, conquistando-lhe os pormenores. talvez seja nisto que eu penso quando estou calado.

nazaré

viagem ao passado é voltar aos lugares que conheceste como criança e perceberes que, apesar de tudo o que passou, o lugar não mudou. isso não deixa de ser triste. muito triste.

traidores

ainda não consigo acreditar que o pelletier diga carago. um francês a dizer carago. isto deverá ter algum significado.

sábado, 3 de outubro de 2009

se fosse um intervalo

é sempre assim com os livros. deixas-te levar pelos corredores até que um te prende a atenção. quase ninguém falou nisso, não houve avisos, fanfarra, nada. peguei-lhe com o cuidado de quem pega em algo que há muito conhece. mas que, ou talvez seja por isso mesmo, continua a merecer o prazer da descoberta. o livro chama-se se fosse um intervalo. da ana luísa amaral. e vai comigo.

lado

irrompem, primeiro, pelo aparato sonoro. depois, o aglomerado, as bandeiras. mais próximo, as caras conhecidas, os folhetos, alguns, flores. vale tudo, por agora, para conquistas, mais que as atenções, as decisões. e a manhã de sol que estava tão bonita, deste lado de cá das falsidades.

geografia do medo

"eu dantes não tinha medo de estar aqui com as portas abertas. agora nem janelas, nem nada. tenho que me despachar." isto na rua mais pacata da pacata cidade de torres vedras. isto a um sábado de manhã, onde qualquer passo ecoa por ruas inteiras, de tão calmas. o medo cresce e infiltra-se em todos os poros, em todas as ideias. já não se trata aqui de realidade. apenas de teoria.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

partir pedra

as coisas podiam ser simples como uma cantiga popular brasileira, de rima certa e ilusão passageira fixada na nossa cabeça. mas não. temos o peso da história, da memória e medo, muito medo, do futuro. temos os pés presos na terra descolorida dos nossos antepassados, o amor de mãe castra-nos, a língua prende-se entre os dentes que trazemos cerrados. as coisas podiam ser simples como uma manhã acordada na revolução do grito do ipiranga. mas caminhamos, de tornozelos presos nas correntes, a partir pedra, a partir pedra, a cada dia que passa.

refrão

"fiz esta canção só p'ra você", a lírica destemida, a poção mágica na ferida, "fiz esta canção só p'ra você", o nocturno espremido, o passo mal calculado, "fiz esta canção só p'ra você", a árvore não plantada, a morada desconhecida, "fiz esta canção só p'ra você, mas p'ra quê?, se você gosta só de mpb..."


nota: citação de música de zeca baleiro

adormecer

e o silêncio diz-te, não analises o que não consegues perceber, não dessa forma, deixa correr os dedos pela pele, deixa-te levar pelos barulhos vindos da rua, e adormece, meu querido, adormece.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

dia

um dia plantarás uma rosa e atraído pelo cheiro apaixonar-te-ás por ela. no desejo do abraço cravará em tuas mãos os espinhos. nesse dia compreenderás as dores e os desgostos do amor, a traição, a mentira, o sangue. e a partir desse dia, amarás muito mais intensamente.

missão

entregam-te em mãos a missão, a transmitir em alguns dias, à pessoa certa, e tu caminhas pela noite errando as portas, espreitando as janelas, nas mãos a missão, mas na cabeça, a confusão e a dúvida, a incerteza de fazer o certo, a incerteza de acertares, nas mãos a missão, o corpo que se recusa a andar, a noite inteira, perdido pelos confins dos caminhos que desconheces.

amor

gostava de dizer o amor, os olhos claros, um vinil antigo da tori amos já um pouco riscado, a janela da sala aberta, os cabelos despenteados, os ares do mar e das árvores que nos tomam, gostava de dizer o amor, os olhos cerrados, o espírito tomado pelas palavras mal trocadas, os verbos mal conjugados da noite longa, longa e longe como os lábios que dizem o amor.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

mau

no fundo, o cavaco quer ter o discurso do scolari, mas tem a atitude do antónio oliveira e os resultados do queirós. é tudo mau, meus amigos. é mesmo tudo muito mau.

guerra

cavaco declarou guerra ao partido socialista. o partido socialista lançou os peões contra a presidência, o peão que a presidência tinha caiu na armadilha que ele próprio tinha criado, e teve que vir o presidente armar-se em forte para o ringue. o problema é que o ringue já não existia, o presidente demorou tempo demasiado e ficou apenas como um fantoche, a pavonear-se num lugar vazio. não é para estas figuras ridículas que os presidentes existem, é o que me parece.

um café com o povo

ontem, cavaco convidou o povo português para tomar um café e dar a sua opinião pessoal sobre estas confusões de quem escuta quem, quem se aproveita do quê, o que é que serve ao partido do governo e ao presidente e ao diabo a quatro. no fim, toda a gente saiu mais confusa do que tinha começado. nem com o presidente da república há cafés grátis...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

expectativas

pois, meu caro. porque não ter expectativas já é uma forma de ter expectativas. capice?

condenação

talvez seja essa a condenação do leitor: como encontrar uma maneira de ser surpreendido, se não se entra num livro sem expectativas?

palavra

procuras-te a ti mesmo no que vai sendo escrito, sendo que é difícil perceber o que é verdade ou mentira, o que aconteceu ou ficou por acontecer, o ponto-de-vista onde nasce cada palavra. procuras-te na palavra, mas só encontras aquilo que já pensavas querer encontrar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

horizonte

o horizonte é uma estrada, por terminar, esquecida no meio dos campos do alentejo.

estação de serviço

uma paragem na estação de serviço de grândola e, ao chegarmos junto ao balcão, a entoação da funcionária fez-me pensar que, ou eu ainda estava a dormir, ou então estávamos enganados na estrada. no entanto, era apenas alguém de santa maria da feira a trabalhar em grândola. algo aparente normal. não fosse o caso de pensarmos que aquela pessoa está a mais de quatro horas de casa para trabalhar numa estação de serviço. quando voltamos ao carro, acho que íamos todos a pensar nisso.

algumas apreensões sobre o meu país

apesar de quatro anos debaixo de fogo (muito por culpa própria), josé sócrates é reeleito primeiro-ministro, mantendo uma confortável maioria parlamentar que lhe permitirá ir jogando com as alianças sem ter a necessidade de se coligar só com um partido. isto diz-me qualquer coisa sobre os portugueses.

a oposição demagógica, com paulo portas à direito e francisco louçã à esquerda, foi a grande vencedora desta eleição.quando digo oposição demagógica, digo aquela oposição que pega em problemas laterais e os empola até os tornar mediáticos. quase sempre são problemas para os quais não têm uma solução. mas aumentam os seus grupos parlamentares a cavalgá-los. isto diz-me qualquer coisa sobre os portugueses.

o movimento esperança portugal vale 55 mil votos com laurinda alves e 25 mil votos sem laurinda alves. isto diz-me qualquer coisa sobre os portugueses.

40 por cento dos portugueses continua a achar que se faz um político pensar não indo votar. parece-me falta de pensamento próprio. isto diz-me qualquer coisa sobre os portugueses.

não há uma pessoa na liderança dos partidos políticos com representação parlamentar que se possa dizer ser uma pessoa de confiança. e isto diz-me tudo o que eu preciso de saber sobre os portugueses.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

braços

vais acumulando bandas sonoras na tua cabeça em cada viagem de carro. ao longo do tempo tudo parece misturado, perdem-se as referências de cada uma das músicas, de cada um dos sons. és apenas um tipo a dar aos braços a ser observado pelo condutor do carro na fila ao lado.

portátil

a festa invisível da literatura portátil está, co